11
Fevereiro

Tropecei outra vez em Luíz Pacheco.

Encontrei um pedaço da sua obra-prima: a Comunidade.

E encontrei nele o sobressalto do meu próprio medo da morte.

Lembrando-me que só consigo sobreviver a ela com a criatividade da escrita e o amor. Mesmo assim será sempre uma sobrevivda simbólica.

Vida para ti, não para mim, já morto.

Claro que o amor, com todos os seus defeitos de fabrico, rupturas, desencontros e canseiras, são o Melhor do Mundo.

Só nesses momentos de infunda ternura, de trémula paixão ou de descanso no teu peito, me esqueço da minha própria morte.

Sinto-me só.

E escrevo por sopetões para escapar à dor.

E depois há um senhor que escreve esta declaração de amor. E eu. Cá em baixo. Penso-me.

Se este gajo, tão soberbamente arrasador, se angustiava deste modo. Como sobrevivo eu?

Escreve rapaz, escreve.
 

” Quando a dor no peito me oprime, corre o ombro, o braço esquerdo, surge nas costas, tumifica a carótida e dá-lhe um calor que não gosto; quando a respiração se acelera em busca duma lufada que a renasça, o medo da morte afinal se escancara (medo-mor, tamanha injustiça, torpeza infinita), aperto a mão da Irene, a sua mão débil e branca. Quero acordá-la. E digo : «não me deixes morrer, não deixes…» Penso para comigo, repito para me convencer: «esta pequena mão, âncora de carne em vida, estas amarras suas veias artérias palpitantes, este peso dum corpo e este calor, não me deixarão partir ainda…» E aperto-lhe a mão com força, e acabo às vezes por adormecer assim, quase confiante, agarrado à sua vida. Ah, são as mulheres que nos prendem à terra, a velha terra-mãe, eu sei, eu sei ! São elas que nos salvam do silêncio implacável, do esquecimento definitivo, elas que nos transportam ao futuro, à imortalidade na espécie (nem teremos outra) pelo fruto bendito do seu ventre (eu sei, eu sei…) ”

Excerto de ” Comunidade “, de Luiz Pacheco.

via blog do Bruno Nogueira @ Corpo Dormente

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